A ROÇA DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE: DESÍGNIO E PROJECTO

Hugo Machado da Silva
hugomachadodasilva@gmail.com

Sérgio Fernandez
atelier15@gmail.com

Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto

O processo de colonização das ilhas de São Tomé e Príncipe não se caracteriza, na sua essência, pela originalidade ou por uma especificidade decorrente das suas características geográficas ou climatéricas. De um modo geral, pode-se afirmar que a metodologia de apropriação do território ocorreu de acordo com o que havia já sido testado e ensaiado, pelos portugueses, noutras regiões insulares do Atlântico[1].

No entanto, a introdução da cultura do café e mais tarde do cacau[2], resultaria na implantação no território de soluções de vanguarda, quer a nível dos métodos de produção quer a nível da materialização dos assentamentos, que tornaram possível um intenso processo de transformação destas ilhas, transformando-as num singular e pertinente caso de estudo dentro do universo do património arquitectónico de origem portuguesa.

Os assentamentos agrícolo-industriais de São Tomé e Príncipe dedicados à produção do café e do cacau, comummente denominados de roças, definem redes hierarquizadas de aglomerados agrícolas, em que os elementos são pensados e desenhados para desempenhar uma função específica e onde cada elemento ou edifício constitui uma peça chave num elaborado mecanismo que visava a maximização de produção, com o intuito de servir o propósito do projecto colonial.

A investigação em curso procura debruçar-se sobre o processo evolutivo deste território que se caracteriza, não só pela adaptação de métodos e modelos des/conhecidos do universo português a uma realidade concreta, mas também a uma realidade socioeconómica em constante mutação. Em suma, pretende-se demonstrar que as explorações não resultam de um desígnio prévio, assente em modos e práticas de construção experimentadas noutras geografias, mas de todo um processo evolutivo, que se estende durante décadas, que alia esses mesmos modos e práticas a uma geografia específica, a diferentes momentos de investimento[3], à introdução de novas técnicas e infra-estruturas de produção e a determinantes convulsões sociais[4].

A investigação procurará deste modo entroncar-se numa discussão mais ampla do “Luso-Tropicalismo”, que interpreta a arquitectura portuguesa no mundo como processo adaptação às mais variadas realidades geográficas, climáticas e culturais. Deste modo, investigação terá como campo de reflexão mais alargado os padrões de ocupação e estruturação dos territórios ultramarinos portugueses, a importância entre civilização, paisagem e património, recuperando algumas das temáticas que lhe são próprias como a inteligência do lugar, a compatibilização entre racionalidade e organicidade, e a exploração dos recursos locais.

Através do estudo a várias escalas pretende-se ainda demonstrar que este processo evolutivo é transversal desde a macro escala do território, pela associação de roças (sedes e dependências) e introdução de infra-estruturas de comunicação, até à escala do assentamento, pela mutação de padrões de implantação, introdução de infra-estruturas de apoio e alteração dos métodos e materiais de construção.

Partindo do princípio que as soluções, estratégias e lógicas arquitectónicas encontradas variam consoante a empresa  responsável pela sua materialização, a presente comunicação procurará abordar diferentes casos de estudo na tentativa, não só de caracterizar cada processo evolutivo, mas também, de estabelecer relações, de variantes e/ou invariantes, entre os diferentes modelos adoptados no território.

Keywords: São Tomé e Príncipe, Aglomerados agrícolas, Roça, Cacau, Café

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[1] Segundo Francisco Tenreiro, a ocupação das ilhas recorreu a uma série premissas comuns a quase todas elas. Casos dos Arquipélagos da Madeira e Açores, Ilhas de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe.
[2]
Finais século XIX até meados século XX.
[3]
Determinados tanto pelas cotações do cacau e do café como pela política ultramarina.
[4]
Transição se um sistema cripto-esclavagista para um de serviçais contratados.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MANTERO, F. (1910), A mão d´obra em S.Thomé e Príncipe. Lisboa.
Tenreiro, F. (1961), A floresta e a ocupação humana na ilha de São Tomé. Garcia de Orta. Revista da Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar. Vol. 9,nº3 .
TENREIRO, F. (1961), A ilha de São Tomé. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar.
Fernandes, J. M. (2005) Arquitectura e Urbanismo na África Portuguesa. Casal de Cambra: Caleidoscópio.
Nascimento, A. (2008), Atlas da Lusofonia: São Tomé e Príncipe. Lisboa: Prefácio.

 REFERÊNCIAS ICONOGRÁFICAS
[HMS] – Hugo machado da Silva (primeiro autor).
[ASF] – Ana Silva Fernandes (co-autora dos levantamentos arquitectónicos, Doutoranda da FAUP).

 AGRADECIMENTOS
Agradece-se o contributo da Arquitecta Ana Silva Fernandes (referenciada como [ASF]), Doutoranda da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, na realização conjunta dos levantamentos do património arquitectónico das Empresas Agrícolas de São Tomé e Príncipe.

Biography note:
Hugo Machado da Silva – nasceu no Porto em 1981. Licenciou-se em Arquitectura em 2007, na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. No mesmo ano concluiu o seu Estágio Académico no escritório OAB (Office of Architecture in Barcelona) sob a direcção do Professor Doutor Carlos Ferrater Lombarri. Em 2008 terminou o Estágio de Admissão à Ordem dos Arquitectos no escritório CPGAS (Carlos Prata Gabinete de Arquitectura e Serviços, Lda.) sob a orientação do Professor Carlos Prata e iniciou a sua actividade profissional como Arquitecto.
Paralelamente, em 2009 iniciou o Doutoramento em Arquitectura na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.

Sérgio Fernandez – nasceu no Porto, em 1937. Diplomou-se no Curso de Arquitectura, na Escola Superior de Belas Artes do Porto. Professor reformado da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, integrou os Conselhos Directivos e Pedagógicos do Curso de Arquitectura da Escola Superior de Belas Artes de 1976 a 1983. Foi Vice-Presidente do Conselho Directivo da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, de 1988 a 1994 e membro do Conselho Científico desde 1987. De 1990 a 1997 dirigiu o Centro de Estudos.
Ministrou em várias faculdades como o Departamento de Arquitectura da Faculdade de Engenharia da Universidade de Angola (1981), Faculdade de Arquitectura da Universidade de S. Paulo (1993) e a Faculdade de Arquitectura da Universidade do Recife (1994). Leccionou, de 1997 a 2005, na Universidade do Minho, Curso de Arquitectura, onde rege a cadeira de Projecto I. É autor de vasta obra de arquitectura, objecto de vários prémios e maioritariamente publicada. Jubilado da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto em Novembro de 2006.