AS ROÇAS DE S.TOMÉ E PRÍNCIPE – A UNIDADE E DIVERSIDADE NA CARACTERIZAÇÃO DE UM MODELO ÍMPAR DE PATRIMÓNIO AGRÍCOLA MUNDIAL

 

Rodrigo Maria Carvalho Rebelo de Andrade
Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto
rebelodeandrade.rodrigo@gmail.com

Duarte Maria Rebelo de Andrade de Pape
duartepape@gmail.com

As roças de São Tomé e Príncipe, enquanto património agro-industrial constituem no seu conjunto um dos maiores exemplos que importa discutir e analisar com fim de se encontrarem medidas que levem à sua  consequente salvaguarda e valorização.

A compreensão deste património decorre do entendimento das características e dos modelos que as identificam enquanto  conjunto, abarcando simultaneamente os  factores que as tornaram estruturas agrárias particulares e diversas dentro da sua amostra global.

Os autores pretendem, através de um inventário a 32 ( trinta e duas) estruturas agrárias, apresentar  o património arquitectónico das roças, os valores de unidade e diversidade através do conhecimento da sua organização, programa e tipologias nas suas diferentes escalas e dimensões.

A roça, enquanto estrutura urbana, tendo sido o principal motor de desenvolvimento deste arquipelago nos  finais do séc. XVIII e inicios do séc. XX, apresenta no contexto das ilhas atlânticas, vários factores comuns no processo de ocupação e colonização, quer com os arquipélagos da Madeira e Açores, quer com as ilhas de Cabo Verde. Entre esses factores encontramos como exemplo a introdução de uma de população livre e de uma população de escravos e o desenvolvimento impulsionado pela introdução de culturas agrícolas e ciclos produtivos e que importa comparar.

A analise da escala territorial permite compreender a  diferente matriz de implantação das estruturas na ilha de São Tomé e na Ilha do Príncipe. Consequentemente, a compreensão da organização e dimensão das diversas empresas agrárias, as suas fronteiras e o modo como a  relação estabelecida entre as sedes e suas depedências definiu e influencou a a criação das suas redes viárias, ferroviárias e portuárias.

A analise da organização interna da roça, permite compreender que o fenómeno da roça, nas suas múltiplas variáveis programáticas, partia do “Terreiro” o seu espaço central e orientador .

Assumindo maioritariamente a forma rectangular o “Terreiro”, podia conter várias formas e estruturas: sob um eixo orientador, designando-se “roça-avenida”; sob diferentes cotas com dois ou mais terreiros dando maior dinamismo e denominando-se “roça-cidade”; ou sob a forma quadrangular, encerrando as quatro frentes, a “roça-terreiro”.

Esta escala permite constatar a sua diversidade programática, que embora contenha uma matriz idêntica através das componentes Habitacional, Assitencial e Agrícola, os seus elementos principais e comuns como a Casa Principal, Sanzalas, Hospitais, Escolas, Secadores e Armazéns não definiam por completo o programa individual de cada estrutura encontrando assim elementos tão especificos quanto  fornos de cal, depósitos de água, aquedutos, praças de touros, torres sineiras, pombais, teleférico de transporte de mercadoria entre outros que as remetendo para a temática actual da sustentabilidade e auto-suficiência.

Estes factores permitiram gerar estruturas muito diversas que devido à sua dimensão, função e implantação apresentam uma amostra vasta e rica.

Por fim, a escala arquitectónica, permitindo compreender cada estrutura enquanto unidade particular no universo global das roças;  as suas caracteristicas arquitectónicas particulares, processos construtivos e materiais de cada componente. Encerrando e apresentando numa abordagem geral e comparativa as estruturas agrárias notaveis e marcantes não apenas no seu território mas também na sua memória e identidade .

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Keywords: Roça, Território, Arquitectura, Património, Inventário

Referências Bibliográficas
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AA.VV. – São Tomé, Ponto de Partida. Lisboa: Instituto Marquês de Valle Flor, 2008.
AA.VV. – 100 obras de engenharia portuguesa no mundo, no século XX. Lisboa: Ordem dos Engenheiros 2003.
REBELO DE ANDRADE, Rodrigo – As roças de São Tomé e Príncipe – O passado e o futuro de uma arquitectura de poder. (Dissertação para Tese Final de Curso) Porto: Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, 2008.
COLONIAL, Centro Lisboa – Representação dos Agricultores de S.Tomé e Príncipe A sua Excelência o Ministro do Ultramar, 1957.
FERNANDES, José Manuel – Arquitectura e Urbanismo na África Portuguesa.  Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2005.
LOUREIRO, João – Postais Antigos de São Tomé e Príncipe. Lisboa: ed.autor, 1999.
MAGALHÃES, Ana; GONÇALVES, Inês – Moderno Tropical – Arquitectura em Angola e Moçambique 1948-1975. Lisboa: Tinta da China, 2009.
MANTERO, Francisco – La mano de obra en San Thomé e Principe. Madrid: ed.autor, 1920.
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TENREIRO, Francisco José – A floresta e a ocupação humana na ilha de São Tomé. Lisboa: Revista da Junta de Investigação do Ultramar (Vol. 9 – nº 4),  1961.
TENREIRO, Francisco José – A Ilha de São Tomé. Lisboa: Memórias da junta de investigações do ultramar, 1961.

Biography note:
Duarte Pape
– Licenciatura em arquitectura pelo IST (Instituto Superior Técnico) com o trabalho final de curso subordinado ao tema “Projecto Urbano em Chelas” sob orientação do Arq. Manuel Salgado (2006). Exposição em Florença, no Festival Beyond on Media 2005 no âmbito da disciplina de Desenho Assistido por Computador com o trabalho académico “Roman Theatres according to the rules of Vitruvio”.
Início de colaboração com o atelier PROMONTÓRIO Architecture participando em projectos nas áreas de retail, turismo, habitação e lazer, desde as fases de masterplan até ao projecto de execução e assistência técnica à obra (2007-2010).
Colabora actualmente com o gabinete CPU Retail (2010).
Concepção e Comissariado da Exposição itinerante de arquitectura “Inventar(iar) as Roças de São Tomé e Príncipe” patente na 6ª edição da Bienal de Arte e Cultura de São Tomé e Principe em 2011 e Câmara Municipal de Lisboa 2012.
Colaboração em projectos de formação e cooperação com a ONG Leigos para o Desenvolvimento em São Tomé e Príncipe (desde 2007).

 Rodrigo Rebelo de Andrade – Licenciatura em Arquitectura pela FAUP (Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto) com a Tese final de curso subordinado ao tema “As Roças de São Tomé e Príncipe – o passado e o futuro de uma arquitectura de poder” sob orientação do Arq. Manuel Graça Dias (2008). Bolseiro do programa Erasmus em Madrid na ETSAM (Escuela Técnica Superior de Arquitectura) (2007). Início de colaboração com o Arq. Eduardo Souto Moura, desenvolvendo projectos nas áreas de Habitação e Turismo desde as fases de Estudo Prévio até ao Projecto de Execução (desde 2008).
Concepção e Comissariado da Exposição itinerante de arquitectura “Inventar(iar) as Roças de São Tomé e Príncipe” patente na 6ª edição da Bienal de Arte e Cultura de São Tomé e Principe em 2011 e Câmara Municipal de Lisboa 2012.
Colaboração em projectos de formação e cooperação com a ONG Leigos para o Desenvolvimento em São Tomé e Príncipe (desde 2005).

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