O FUNDO FRANCISCO MANTERO (FFM) E A CONSTRUÇÃO DE SABERES RELATIVOS A S. TOMÉ E PRÍNCIPE

Ana Canas
Arquivo Histórico Ultramarino – Instituto de Investigação Científica Tropical
ana.canas@iict.pt

José Sintra Martinheira
Arquivo Histórico Ultramarino – Instituto de Investigação Científica Tropical
jose.martinheira@iict.pt

Pretende-se evidenciar: as singularidades do fundo de arquivo privado Francisco Mantero, doado ao Instituto de Investigação Científica Tropical e sob custódia do Arquivo Histórico Ultramarino, dele dependente; a trajectória custodial deste fundo e à documentação em reconhecimento no AHU, bem como a identificação dos produtores de documentos, sobretudo do âmbito empresarial (roças, companhias e sociedades) e de família (respectivos núcleos, membros e relações de parentesco) e caracterização de funções e actividades, nomeadamente económicas, políticas e sociais. Outros aspectos a ter em conta serão a expressão e diversidade da correspondência privada neste fundo de arquivo e natureza, frequentemente única, dos respectivos conteúdos informativos; o significado e consequências da presença e da ausência de documentação associada ao FFM, no AHU/IICT e em outras entidades detentoras, incluindo de S. Tomé e Príncipe; a relevância do FFM para o conhecimento deste país, no contexto africano e num contexto global, em especial das dinâmicas laborais, de produção e comercialização do cacau e de outros produtos agrícolas, da constituição das roças e da evolução da propriedade, e ainda da dinâmica política, no quadro da administração colonial portuguesa entre as últimas décadas do séc. XIX e o início da década de 70 do séc. XX.
Potencialidades e limites da identificação preliminar de agregados documentais no interior do FFM:  organicidade, vozes e silêncios. Conservação de arquivos privados pelos seus produtores e sucessores, e critérios, mais assumidos, ou menos, de selecção da documentação a conservar: dimensão probatória, para efeitos legais, de certos documentos, e variabilidade de usos ao longo do tempo; aleatoriedade e vontade na construção de memórias. Vicissitudes históricas, comportamentos sociais e atitudes políticas face a arquivos coloniais públicos e privados, em particular em Portugal.
Dilemas no tratamento documental do FFM: gestão de condicionantes externas e procedimentos técnicos. Identificação e imperceptibilidade de classes originais, classificação provisória de documentos e contigências de uma abordagem preliminar à documentação. Opções de organização da documentação e dos elementos de descrição e impacto nos modos de comunicação de conteúdos informativos, no acesso aos documentos, nas estratégias de pesquisa neles baseadas e na produção de conhecimento. A neutralidade comprometida da intervenção arquivística e a exigência científica de conferir inteligibilidade a codificações e estruturas de descrição, viabilizando formas de verificação externa desse compromisso.

Keywords: Arquivo, Francisco Mantero, Memória, Portugal, S. Tomé e Príncipe

Biography note:
Ana Canas Delgado Martins

Directora do Arquivo Histórico Ultramarino do Instituto de Investigação Científica Tropical. PhD em “Library and Information Studies” pela Universidade de Londres (School of Archive and Information Studies do University College London).Tese pub. Governação e Arquivos: D. João VI no Brasil. Lisboa: Direcção-Geral de Arquivos, 2007. Mestre em História Moderna de Portugal pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Tese pub. A Inquisição no Estado da Índia: Origens (1539-1560). Lisboa: AN/TT, 1999. Pós-graduada em Ciências Documentais: Arquivo, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão Luso-Brasileira para a Salvaguarda e Divulgação do Património Documental (COLUSO) e do Fórum de Arquivos de Língua Portuguesa. Tem arguido teses e feito parte de júris de Mestrado e, mais recentemente de Doutoramento, em Bibliotecas Digitais (ISCTE) e em Ciências da Informação e da Documentação – Arquivos (UNL, FLUL, UAL e Universidade do Porto. Pesquisa e publicação na área da Arquivística e da História.

José Sintra Martinheira –Licenciatura em História (1988) FCSH-UNL; Especialização em Arquivo (1992) FL-UL; Coordenador técnico de projetos de tratamento documental, entre outros, “Resgate de documentação histórica Barão do Rio Branco” (1996-2005) e “Sabores e saberes tropicais: acesso ao Fundo Francisco Mantero” (2011).


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