SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE N’ “O MUNDO PORTUGUÊS”

Sérgio Neto
CEIS20 – Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX
Universidade de Coimbra

sgdneto@gmail.com

 
A Revista O Mundo Português, significativamente subintitulada de “cultura e propaganda/arte e literaturas coloniais”, e que se fez publicar entre 1934 e 1947, teve um papel decisivo na afirmação da “mística imperial” propugnada pelo regime de Salazar, numa demonstração plena da “política do espírito” encetada pelo recém-criado Secretariado da Propaganda Nacional (SPN), outro esteio do Estado Novo. Na verdade, as suas páginas revelaram-se um consumado veículo de propaganda, nelas figurando os mais diversos géneros literários, assim como uma série de iniciativas culturais destinadas a filtrar uma certa visão do colonialismo português. Um colonialismo que se pretendia diferente dos outros, porque supostamente mais humanitário e fundado em muitos séculos de contacto com o Outro. Um colonialismo que, ainda sem abraçar a teoria luso-tropical do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, começava a reconhecer algumas virtudes aos processos de miscigenação operados em terras de além-mar. Mas, acima de tudo, um olhar estereotipado, exótico e triunfalista, sem dúvida tributário do axioma “saber para dominar”.

Partindo da informação presente nesta revista, e de outras publicações periódicas congéneres, pretende-se traçar um retrato do arquipélago de São Tomé e Príncipe dos anos 30 e 40. Esta análise adoptará, em primeiro lugar, uma perspectiva de comparação com as demais ex-colónias portuguesas, a fim compreender a importância do referido arquipélago no espaço ultramarino luso. Depois, serão passadas em revista as opiniões, comentários, sugestões e posições acalentadas e desenvolvidas por viajantes, literatos, artistas, ideólogos, gente das ciências sociais, entre outros, que consagraram os seus escritos ao arquipélago. Finalmente, estas leituras serão cotejadas com o ideário oficial presente noutras publicações contemporâneas, tendo como objectivo descortinar a imagética assumida por São Tomé e Príncipe perante o olhar do colonizador. Imagética da terra e dos seus homens e mulheres. Imagética da cultura local e das actividades das ilhas. Imagética, enfim, de um período decisivo na história do arquipélago, que antecedeu a luta pela independência.

Keywords: Colonialismo, Ideologia colonial, Miscigenação, Mundo Português

Biography note: Sérgio Neto é professor do Ensino Básico e Secundário, Doutorando da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) e Investigador Colaborador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20). Tem vindo a desenvolver investigação sobre a História político-cultural de Cabo Verde, que conheceu resultados no livro “Colónia Mártir, Colónia Modelo” e em alguns artigos publicados em Portugal e no estrangeiro.