EXPRESSÕES DE PERTENÇA E DE IDENTIFICAÇÃO NACIONAL ENTRE OS SÃO-TOMENSES RESIDENTES EM PORTUGAL

José Manuel Sobral
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa – ICS-UL
jose.sobral@ics.ul.pt

Ester Costa Alegre
ester_costalegre@hotmail.com

A identidade nacional continua a ser um importante facto social numa época marcada por contactos sem precedentes entre as diversas áreas mundiais, que são ao mesmo tempo um resultado e um pilar do que se designa como globalização, que, para alguns, viria a redundar no seu enfraquecimento. Entre estes contactos contam-se as migrações que têm levado a uma grande deslocação das populações dos países mais pobres para os mais abastados.

Nesta comunicação propomo-nos abordar as expressões da identificação nacional no contexto específico dos naturais de S. Tomé e Príncipe residentes em Portugal e que para aqui imigraram depois da independência desta antiga colónia portuguesa. O nosso objectivo consiste, em por um lado, tratar de examinar as expressões de identificação nacional e mostrar por que meios os sentimentos de ligação a S. Tomé e Príncipe são reproduzidos. Por outro, em utilizar esta análise dos sentimentos de pertença nacional dos são-tomenses para testar a pertinência de diversas abordagens recentes do nacionalismo e da sua importância no presente. Entre outros aspectos, propomo-nos analisar: a relação entre identidade nacional e identidade étnica ou regional; a relação entre identidade nacional, identidade individual e as experiências da vida transnacional, bem como a incidência do chamado nacionalismo à distância; a reprodução do nacionalismo banal na interacção quotidiana, através de uma multiplicidade de práticas – da troca de informações à comida – que mantêm viva a memória do país natal; o papel das instituições – associações de imigrantes, embaixada – dos meios de comunicação e de vários tipos de comemorações e festividades na sustentação da identidade nacional. Será prestada uma atenção especial ao modo como a identidade nacional (são-tomenses) se constrói e reproduz na interacção com o Outro Significante – neste caso a sociedade portuguesa.

A base da nossa pesquisa reside em informações recolhidas através da observação etnográfica conduzida nos últimos anos em convívio com são-tomenses residentes na Área Metropolitana de Lisboa e em particular membros da ACOSP ou aqueles que frequentam a sua sede e as actividades que promove, complementadas por entrevistas realizadas a são-tomenses dos dois sexos e de várias camadas etárias.

Ao examinar estes processos de identificação nacional, iremos ter em conta a distinção entre estatutos legais como os de cidadania – pois muitos naturais de S. Tomé e Príncipe são cidadãos portugueses – e nacionalidade, no sentido de identificação com uma terra natal. Finalmente, iremos abordar, a partir deste estudo de caso, algumas das razões que explicam a persistência das identificações nacionais em situações de Diáspora.

Keywords: Identidade nacional, Nacionalismo à distância, Nacionalismo banal, Diáspora

Biography note:
José Manuel Sobral
– Antropólogo e Historiador, Investigador Principal do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa – Laboratório Associado. Investigou temas relacionados com a sociedade rural portuguesa, envolvendo a estratificação e o sistema de classes, a família e o parentesco, a religião, o poder político e o conflito social. Mais recentemente voltou-se para os estudos das epidemias (de um ponto de vista social e cultural), da antropologia e história da alimentação, da memória social, do racismo, da identidade nacional e do nacionalismo. A sua pesquisa sobre a comunidade são-tomense em Portugal incide nestes últimos aspectos.
Entre os seus escritos refira-se a edição recente, com Jorge Vala, de Identidade Nacional, Inclusão e Exclusão Social (Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2010).
Foi presidente da Associação Portuguesa de Antropologia (APA).

Ester Costa Alegre – Licenciada em Sociologia e Mestre em Desenvolvimento Social e Económico em África – Análise e Gestão, Ester de Jesus Guedes Costa Alegre é atualmente Socióloga coordenadora de um projeto de reinserção familiar das crianças institucionalizadas no internado (ARCAR) em São Tomé e Príncipe, da autoria do Ministério da Saúde e Assuntos Sociais deste país, em colaboração com o UNICEF. Da sua atividade de investigação, salientam-se, entre outros, os projetos: colaboração na pesquisa do projeto “A Pátria à Distância” e recentemente colaboração no estudo do UNICEF em São Tomé e Príncipe sobre o impacto dos 20 anos de funcionamento da Associação de Reinserção Social de Crianças Abandonadas e em Situação de Risco – ARCAR na vida dos actuais e ex-utentes desta instituição.


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