O AUTO DE FLORIPES DO PRÍNCIPE E DO MINHO – PARALELO ENTRE AMBOS, COM MAIOR INCIDÊNCIA NO PAPEL DA PRINCESA TURCA

Alexandra Gouvêa Dumas
Núcleo de Teatro da Universidade Federal de Sergipe, Brasil
alexandradumas@hotmail.com

Teresa Perdigão
Instituto de Estudos de Literatura Tradicional
Universidade Nova de Lisboa

teresaperdigao@hotmail.com

As representações que se fazem d’ O Auto de Floripes na ilha do Príncipe e no concelho de Viana do Castelo, no mês de Agosto,  têm por base o texto dramático intitulado A HISTÓRIA DE CARLOS MAGNO E OS DOZE PARES DE FRANÇA.

Ambas se têm adaptado às exigências e contingências políticas, sociais e culturais, seguindo estratégias diferentes, em cada uma das comunidades, mantendo, contudo, o enredo nuclear de cristianização e da vitória dos cristãos sobre os mouros.

As Floripes desempenham papeis socias diferentes e obedecem a regras de conduta próprias da comunidade onde se insere.

É esta personagem,  a princesa moura, que se constitui como o principal elemento deflagrador de intrigas cénicas, o que lhe imprime destaque e privilégio,  tanto no drama como na vida social.

É  ela que dá o nome à representação desse espetáculo de batalhas que acontece nas ruas da pequena e única cidade da ilha, Santo António ou no palco da pequena aldeia minhota das Neves. A ação da princesa não se resume aos palcos da ficção, transpondo-se, assim, do universo simbólico para a vida real.  A juventude, a beleza, a virgindade e o comportamento são componentes que definem qual a mulher que ocupará, anualmente,  o papel da princesa.

Se, na ilha do Príncipe, a Floripes sempre foi uma jovem mulher, no Minho, só desde meados do século XX, este papel deixou de ser atribuído ao homem.

Vivendo os frágeis limites entre vida real e ficção, Floripes transita entre a pessoa e o personagem. Na ilha do Príncipe, para se candidatar ao posto de princesa, a jovem deve cumprir, dentre outros, o critério da virgindade. Nas Neves, basta que não seja casada.

Mesmo sendo a representação da princesa no Auto de Floripes uma reprodução com bases na hegemonia masculina, religiosa e colonizadora, a permanência e a aceitação no seio popular deste auto demonstram que é na construção e anexação de novos conceitos e comportamentos que a encenação incorpora valores do passado e da atualidade.

O traje, por exemplo, tem identificado a Floripes do Príncipe com o Ocidente, enquanto a Floripes minhota se aproxima cada vez mais do Oriente.

Também as adaptações e recriações do texto, bem como o espaço onde se desenrola o Auto têm contribuído para os diferentes percursos feitos por estas representações teatrais que têm em comum o facto de virem a público no dia dos santos festejados em cada uma das localidades – São Lourenço e Nossa Senhora das Neves, respetivamente, daí na ilha do Príncipe ser mais comum dizer-se “o São Lourenço”, em vez de Auto de Floripes.

Keywords: Auto de Floripes, Ilha do Príncipe, personagem feminino, ficção e realidade

Biography note:
Alexandra Gouvêa Dumas:
Profesora Doutora da Universidade Federal de Sergipe, Núcleo de Teatro. Possui  Licenciatura em Teatro pela Universidade Federal da Bahia (2003) e mestrado em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (2005). Doutora em Artes Cênicas pela UFBA em regime de co-tutela com a Université Paris X (2011) . Tem experiência na área de Artes em ensino, pesquisa e interpretação (atriz), com ênfase em Teatro Popular, atuando principalmente nos seguintes temas: teatro e cultura popular, teatro-educação, produção cultural. Na pesquisa de doutorado fez um estudo comparativo entre a “Luta de Mouros e Cristãos”, folguedo da cidade baiana de Prado, Brasil e o “Auto de Floripes”, de São Tomé e Príncipe- África.