AUGUSTO BASTOS E VIANA DE ALMEIDA: AFIRMAÇÕES POSSÍVEIS DE CRIOULIDADE NOS ANOS 30 DO SÉCULO XX

Cátia Miriam Costa
Universidade de Évora
catiamiriam1@gmail.com

Augusto Bastos e Viana de Almeida são dois autores mestiços, um angolano e o outro santomense, alternando a sua vida entre Portugal e as suas terras de origem. Escritores, cuja profissão principal não é a escrita, representam duas gerações diferentes, publicando ambos nos anos 30 do século XX, decénio em que as comunidades crioulas conhecem o auge de um progressivo controlo e silenciamento. A literatura e o jornalismo tornam-se as únicas armas possíveis a serem utilizadas, quando todos os meios de progressão económica e social se vão esbatendo e as iniciativas da sociedade civil, como as associações, começam a ser fortemente controladas na sua atividade, sendo algumas destas proibidas. A expressão textual passa, então, a ser a única forma de afirmação cultural própria.

Entre a realidade e a fição traçam retratos de sociedades à procura de si mesmas ou em estado de agonia, provocada por um sistema colonial paulatinamente mais ameaçador para as comunidades crioulas. Assim, os movimentos identitários e proto-nacionalistas são abafados, ficando a certeza que houve uma forte comunicação entre estes e que os projetos de escrita foram determinantes, tanto no período do seu florescimento como no período do seu declínio forçado. É, ainda, de referir que os intelectuais santomenses desempenham um papel importante na agitação da consciência africana no seio das colónias portuguesas, mormente, em Angola devido às relações mantidas pela questão dos serviçais.

Representando momentos diferentes da vivência crioula, em sociedades diversas, mas ambas aparecendo como ilhas (S. Tomé no verdadeiro sentido da insularidade e Benguela por estar rodeada de uma realidade que nada tinha a ver com a estratificação social da urbe), Augusto Bastos e Viana de Almeida escrevem nos anos 30, deixando testemunhos sobre as suas sociedades. Partindo das suas narrativas, traçaremos os encontros e desencontros de sociedades em rápida transição, no seio de um sistema colonial que avigorava as suas estruturas de domínio e emudecia as elites locais, numa estratégia que só terminaria com o fim da colonização.

Keywords: crioulidade, identidade, literatura, jornalismo

Biography note: Licenciada em Relações Internacionais e mestre em Estudos Africanos no Instituto Superior Ciências Sociais e Políticas – UTL, estando a terminar uma tese de doutoramento sobre utopia colonial e discursos ficcionais e reais, na Universidade de Évora.  É membro do Centro de Filosodia das Ciências da Universidade de Lisboa e do Conselho de Redação de El Jardín de la Voz – Biblioteca de Literatura Oral y Cultura Popular, Instituto Investigaciones Filológicas de la UNAM/CEntro de Estudios Cervantinos. Tem participado em várias conferências internacionais e publicado em obras colectivas e revistas científicas em Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde e Reino Unido.

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