As intelectuais santomenses e a produção de conhecimento: os casos de Inocência Mata e Conceição Lima

Inês Nascimento Rodrigues
Centro de Estudos Sociais
Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
inesbirrento@gmail.com

Partindo da discussão em torno das responsabilidades dos intelectuais, homens e mulheres, na crítica à realidade das sociedades pós-coloniais pretende-se perceber qual o campo de actuação de Inocência Mata, professora universitária especializada em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e da poeta e jornalista Conceição Lima, assim como a forma como a sua obra interfere e se encontra engajada com uma consciência política e histórica de São Tomé e Príncipe.
Inocência Mata e Conceição Lima, duas mulheres, intelectuais, negras e santomenses tomaram entre si, com todos os constrangimentos que essa opção implica, a responsabilidade de mapear as histórias de silenciamentos e omissões do colonialismo, assim como dialogar com os sonhos desfeitos de quem habita no arquipélago, reposicionando os sentidos de quem quer experienciar as ilhas e simultaneamente, procedendo à sua releitura, portanto, deslocalizando-as das margens para um novo centro. São, portanto, mulheres e intelectuais que não se contentam simplesmente em produzir conhecimento, mas que se engajam politicamente e de forma ética com o conhecimento que produzem, manifestando um comprometimento continuado para com os interesses e contextos santomenses e africanos.
O presente trabalho visa, assim, reconhecer, através do conceito de intelectual definido por Antonio Gramsci e articulando-o com as reflexões de Zygmunt Bauman, Gayatri Spivak, Dipesh Chakrabarty, Homi Bhabha, Edward Said, Ngugi Wa Thiong’o e a sociologia das ausências e das emergências proposta por Boaventura de Sousa Santos, os procedimentos dos intelectuais envolvidos nas questões coloniais. Neste sentido, não nos interessa tanto traçar uma genealogia do conceito, mas sim deslocalizá-lo e colocá-lo em perspectiva, para perceber de que forma os intelectuais e as intelectuais pós-coloniais, particularmente aquelas santomenses, fazem emergir narrativas outras. Como escrever estas histórias, se a maior parte das teorias da modernidade e da pós-modernidade omitem ou ignoram alguns dos factos mais importantes que constituem essa modernidade (o colonialismo, o racismo, as práticas de dominação, as de resistência, etc.)? É possível abordar a colonização sem contribuir, involuntariamente, para o seu silenciamento? Que legitimidade tem o intelectual e a intelectual, em específico, para falar sobre determinada realidade e atribuir responsabilidades? Que ferramentas usa para pensar a história e o mundo? Tendo em mente a resposta a estas questões, considero, também, fundamental, pensar o papel e responsabilidade do teórico pós-colonial, de acordo com as propostas destes autores, procurando simultaneamente reflectir sobre o lugar da escrita comprometida de Inocência Mata e Conceição Lima neste campo.

Keywords: negritude, poesia, resistência, S. Tomé e Príncipe

Biography note: Inês Nascimento Rodrigues é licenciada em Jornalismo pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (2008) e mestre pela mesma instituição desde 2011. Actualmente, é bolseira de doutoramento da FCT e doutoranda no programa de “Pós-Colonialismos e Cidadania Global” pelo CES/FEUC.
Os seus principais interesses de investigação centram-se nos estudos literários e culturais, nas questões da produção de conhecimento, nos estudos pós-coloniais e nos debates sobre representações culturais.