UM DICIONÁRIO SANTOME-PORTUGUÊS / PORTUGUÊS-SANTOME

 

Gabriel Antunes de Araújo
Universidade de São Paulo
g.antunes@usp.br

Tjerk Hagemeijer
Centro de Linguística da Universidade de Lisboa
tjerk.hagemeijer@gmail.com

No espaço de S. Tomé e Príncipe, o santome é a língua crioula que apresenta o maior número de falantes, embora tenha gradualmente vindo a perder terreno face ao português, que é a língua oficial e de união nacional. Historicamente, o santome é o único crioulo autóctone de S. Tomé e Príncipe que tem sido utilizado com alguma regularidade na escrita.

Contudo, na ausência de um esforço de normalização, uma das lacunas ainda por preencher consiste na publicação de um dicionário de referência para o santome, não obstante os diversos progressos lexicográficos feitos na última década, tais como a dissertação de mestrado de Carlos Fontes (2007), o Dicionário lexical santomé-português, da autoria do Ministério da Educação e Cultura (2004) e o dicionário etimológico dos crioulos portugueses em África, de Jean-Luis Rougé (2004).

Nesta comunicação, propomo-nos apresentar um novo dicionário bilíngue santome-português, elaborado por uma equipa de trabalho composto por elementos do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa e da Universidade de São Paulo. O dicionário contém mais de 4.000 verbetes, o que representa um aumento muito substancial de entradas relativamente aos trabalhos anteriores. Os verbetes foram recolhidos num amplo leque de materiais escritos de diferentes épocas e através de trabalho de campo com falantes nativos.

Do ponto de vista das formas escritas em forro, o dicionário segue o Alfabeto Unificado para as Línguas Nativas de S. Tomé e Príncipe (ALUSTP) (Pontífice et al. 2009).

Cada verbete apresenta a forma gráfica, a transcrição fonética, a indicação da parte do discurso, o(s) significado(s) em português, e eventuais outras informações enciclopédicas, tais como o nome científico, a utilização da palavra em expressões fixas, exemplos, ou remissões para variantes. De seguida, apresentamos alguns exemplos de entradas do dicionário:

alêdunha [aleˈduɲa] (n.) Animal da família Mustelidae. Doninha.
alfabaka [alfaˈbaka] (n.) Alfavaca. Piperomia pellucida.
algudon [alguˈdõ] (n.) Algodão.
aliba [ˈaliba] 1. (n.) Capim. 2. (n.) Erva.
aliba-blaboza [ˈaliba blaˈbɔza] (n.) Babosa. Aloe vera.
ami [aˈmi] 1. (pron.) Pronome pessoal. Eu (forma enfática). 2. (pron.) Mim.
kudji [kuˈdʒi] 1. (v.) Responder. Kudji ome. Casar (viver maritalmente). 2. (v.) Cozinhar.

Esta apresentação detalhará os passos do trabalho lexicográfico que resultaram na elaboração deste novo instrumento linguístico que representa um contributo para a normalização do santome com utilidade prática quer para a comunidade quer para o mundo académico.

Keywords: santome, português, lexicografia, dicionário, São Tomé e Príncipe

Biography note:
Gabriel Antunes de Araújo – Graduado em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (1997), com Mestrado em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (2000) e Doutorado em Linguística pela Vrije Universiteit Amsterdam (2004), Holanda. Atualmente é Professor Associado na área de Filologia e Língua Portuguesa no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Língua Portuguesa e Linguística, atuando principalmente nos seguintes temas: línguas crioulas de base portuguesa, português do Brasil, morfologia e fonologia do português. Desde março de 2011 é bolsista de produtividade do CNPq.

Tjerk Hagemeijer – fez grande parte do seu percurso académico na Universidade de Lisboa, onde se doutorou em linguística em 2007, com uma tese sobre o crioulo de S. Tomé. É atualmente professor auxiliar do Departamento de Linguística Geral e Românica da FLUL e investigador do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa (CLUL), tendo dedicado a maior parte da sua investigação ao estudo das línguas crioulas do Golfo da Guiné.