CLASSIFICAR, DENOMINAR AS LÍNGUAS DE SÃO TOMÉ

Jean-Louis Rougé
jean-louis.rouge@univ-orleans.fr

Emmanuel Schang
emmanuel.schang@univ-orleans.fr

Université d’Orléans

Classificar e nomear as línguas é para os locutores das mesmas um assunto importante (Tabouret Keller, 1997; Canut, 2000). Atrás das línguas são muitas vezes os locutores que são classificados ou denominados (no que respeita a violência simbólica dessas classificações Bourdieu 1982). Essa questão e muito mais viva quando se trata de variedades linguísticas surgidas de contactos de línguas já que as fronteiras entre as línguas são transformadas.

Qualquer linguista que efectuou minimalmente trabalho de campo em São Tomé, sabe que não existe correspondência entre as denominações e classificações coloniais ainda muitas vezes usadas pelos próprios locutores e as denominações e classificações usadas nos estudos científicos.

Dizer que o angolar é (ou não é) uma língua bantu não significa a mesma coisa pelo linguista que rejeita essa hipótese porque ele se refere a uma classificação tipológica (línguas a classes nominais, etc.) e/ou a uma classificação genética (possibilidade de reconstrucção…) e pelo leigo que têm como referência uma história suposta ou as diferenças lexicais que distinguem o angolar dos outros crioulos da região. Também é significativo falar da lingwa santome dando assim a essa língua o estatuto de única língua nacional ou falar de dialêtu ligando a lingua, muitas vezes sem ter consciência, as suas relações com o português ou ainda falar de forro, fôlô, colocando o acento na história social da língua.

Quando nos anos 1990, a «abertura democrática» permitiu conhecer a realidade linguísticas e o plurilinguismo das roças de São Tomé (Rougé, 1992 ; Baxter, 2002, 2003 ), a questão da classificação e da denominação das línguas colocou-se. Mais uma vez, a distensão entre as representações dos Tongas e dos outros moradores da ilha e as classificações dos linguistas originaram a diversidade das denominações: português não standard ou português dos Tongas, línguas africanas pidginisadas, koyné umbundu, ou língua de Monte Café, língua Moçambique etc…

Nessa comunicação apresentaremos uma entrevista, realizada em 1991, duma mulher idosa (mais ou menos oitenta anos na altura), nascida em São Tomé e que viveu a maior parte da vida numa pequena roça no Norte da Ilha. Nessa entrevista intervêm também dois santomenses que falam português « standard ».

Mostraremos primeiro que a locutora apresenta uma realidade histórica tanto ao nível linguístico (vida do plurilinguismo) como social -e até político – pouca conhecida e que não corresponde às representações dos seus interlocutores. Depois, mostraremos como a construção dos dados linguísticos tanto em português como apesar de serem raros- em kimbundu, permite esclarecer a classificação das variedades linguísticas.

Keywords: línguas, variedades linguísticas, crioulos, categorização

Biography note:
Jean-Louis Rougé – Professeur des Universités, Département des Sciences du Langage, Université d’Orléans. Laboratoire Ligérien de Linguistique.
Jean-Louis Rougé é o autor do « Dictionnaire étymologique des créoles portugais d’Afrique » (Karthala,2004) e de muitos trabalhos sobre os crioulos portugueses e os contactos linguísticos luso-africanos, entre outros « Les langues des Tongas » (1992).

Emmanuel Schang – Maître de conférences, Département des Sciences du Langage, Université d’Orléans. Laboratoire Ligérien de Linguistique
Emmanuel Schang estuda desde 1995 as línguas de São Tomé e Príncipe com uma tese de doutoramento « l’émergence des créoles portugais du Golfe de Guinée » e vários artigos publicados.