LÍNGUAS E GENES NA ILHA DE S. TOMÉ

 

Jorge Rocha
CIBIO-Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos
Universidade do Porto

jrocha@mail.icav.up.pt

Tjerk Hagemeijer
Centro de Linguística da Universidade de Lisboa
tjerk.hagemeijer@gmail.com

No fim do século XV, a ilha de S. Tomé passou a ser povoada por portugueses e escravos do continente africano, dando início a um processo de miscigenação a todos os níveis: linguístico, genético e cultural. Esta comunicação tem por objetivo analisar a relação entre línguas e genes no arquipélago de S. Tomé e Príncipe e revisitar as hipóteses sobre a origem dos angolares.

Do contacto entre o português e diversas línguas africanas do continente circunvizinho começou a surgir, a partir de finais do século XV, na ilha de S. Tomé, uma nova língua cuja ramificação no tempo e no espaço deu origem a quatro novas línguas – os crioulos de base lexical portuguesa do Golfo da Guiné – que ainda hoje continuam a ser faladas nas ilhas de S. Tomé, Príncipe e Ano Bom (Hagemeijer 2011).

Na ilha de S. Tomé, em particular, a diferenciação linguística entre falantes do angolar e outros falantes, especialmente do forro, é também refletida nos dados genéticos (e.g. Coelho et al. 2008). Os angolares são geneticamente menos diversificados do que a restante população de S. Tomé e apresentam uma diferença relacionada com o género: as linhagens masculinas apresentam um forte efeito fundador que remete para a bacia do Congo (Bantu), ao passo que as linhagens femininas (DNA mitocondrial) são mais diversificadas. Em genes herdados quer por via masculina, quer por via masculina – como a hemoglobina – há, tal como na restante população, linhagens de origem mista, que predominam na região do Benim/Nigéria e na região do Congo/Angola (Tomás et al. 2002).

As linhagens da região Benim/Nigéria (Benim) refletem, em princípio, a origem dos primeiros escravos levados para S. Tomé, provenientes da atual Nigéria, designadamente do antigo Reino de Benim, a principal área de resgate de escravos nas primeiras décadas. Esta população fundadora de escravos foi determinante na crioulização linguística no Golfo da Guiné, tendo deixado nos crioulos um amplo leque de marcas gramaticais e lexicais das suas línguas maternas. Os crioulos do Golfo da Guiné apresentam gramáticas muito semelhantes, mas divergem sobretudo no léxico africano. No caso do angolar, verifica-se uma presença maciça de léxico bantu (10 a 20%) que, regra geral, não é atestada nos demais crioulos. Lorenzino (1998) defende que este léxico resulta da relexificação parcial do crioulo que os escravos que fugiram dos engenhos levaram consigo para o interior da ilha. No entanto, o referido efeito fundador nas linhagens masculinas dos angolares desafia os estudos que assumem que os angolares são os descendentes de levas sucessivas de escravos fugidos (Caldeira 2004; Ferraz 1974; Lorenzino 1998; Seibert 2007). Conjugando dados linguísticos e genéticos, propomo-nos explorar e refinar as hipóteses sobre a origem dos angolares, analisando, por exemplo, se as linhagens que remetem para o Congo estão relacionadas com a elevada percentagem de léxico bantu.

Keywords: genética, linguística, forro, angolar, crioulização

Biography note:
Jorge Rocha –
Professor Associado no Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, onde se doutorou em Genética Humana, e investigador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO). Interessa-se pelo estudo dos factores evolutivos que moldaram os padrões actuais de variação genética em populações africanas e pelas suas relações com as dimensões culturais da diversidade humana, incluindo a diversidade linguística.

Tjerk Hagemeijer – fez grande parte do seu percurso académico na Universidade de Lisboa, onde se doutorou em linguística em 2007, com uma tese sobre o crioulo de S. Tomé. É atualmente professor auxiliar do Departamento de Linguística Geral e Românica da FLUL e investigador do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa (CLUL), tendo dedicado a maior parte da sua investigação ao estudo das línguas crioulas do Golfo da Guiné.