MUDANÇA LINGUÍSTICA E VARIAÇÃO NO PORTUGUÊS DE S. TOMÉ

Rita Gonçalves
Centro de Linguística da Universidade de Lisboa
ritamgg@gmail.com

Na primeira parte deste trabalho procurar-se-á dar conta do processo de mudança linguística registado em S. Tomé, na medida em que se vem assistindo a uma perda da competência linguística daquela que foi historicamente a língua materna (o forro), motivada pela primazia do uso do português em detrimento desta. De facto, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística de S. Tomé e Príncipe, o português é falado atualmente por 98,9% da população, mas fatores históricos, sociais e políticos apontam no sentido de esse não ser um processo recente (RGPH, 2003).

Assim, com vista a dar conta do referido processo de mudança linguística, far-se-á menção ao papel da história na construção do chamado mosaico linguístico que caracteriza o arquipélago, bem como no desencadeamento de dois fenómenos interdependentes que se prolongam até hoje: o processo de erosão linguística dos crioulos e o processo de transição do português L2 a L1, na medida em que o actual input disponível para a aquisição do português é resultado de uma primeira aquisição como L2. Este tipo de mudança linguística é característico das ex-colónias (cf. e.o. Winford, 2003), mas singular no quadro das variedades africanas do português, uma vez que S. Tomé e Príncipe é o único dos PALOP no qual o português é a língua mais falada pela população.

A segunda parte do trabalho tem como objectivos apresentar algumas estruturas gramaticais que ilustram a variação existente no português falado em S. Tomé, bem como avaliar o impacto que fatores extralinguísticos como o nível de escolaridade, o género e a idade, exercem na sua produção. O estudo basear-se-á num corpus de dados orais recolhido em S. Tomé no âmbito do projecto VAPOR (Variedades Africanas do Português) do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, e em resultados preliminares de testes de elicitação aí Estudos anteriores, apoiados no mesmo corpus oral, já fizeram notar a existência de uma associação significativa entre a variável nível de escolaridade e a ocorrência de estruturas divergentes do português europeu, a nível da concordância nominal em número (cf. (1-2) ) e das estratégias de relativização (cf. (3-4)), na medida em que essas são mais comuns em produções de informantes menos escolarizados (cf. Brandão (2011) e Alexandre, Gonçalves e Hagemeijer (2011)). De forma a responder aos objectivos enunciados, pretendemos testar a hipótese de se estender esta análise a outras estruturas gramaticais anteriormente descritas (cf. Gonçalves, 2010), envolvendo os argumentos dativo e oblíquo preposicionados (cf. (5-6) ). Ao mesmo tempo, estabelecer-se-á um cruzamento com variáveis linguísticas, associadas à deslocação dos constituintes (cf. (7-8)), e extralinguísticas, como o género e a idade que, de acordo com estudos preliminares, também parecem deter um importante papel na variação do português de S. Tomé e, consequentemente, na mudança linguística.

(1) Não conheço todas essas coisa que estou a ver lá. (PE = todas essas coisas)
(2) As pessoas mais velha quando faziam calulu (…). (PE = as pessoas mais velhas)
(3) Eu nunca tive bisavós ou avós que eu tivesse vivido com eles. (PE = com que eu tivesse vivido)
(4) A própria escola que eu estudei nele. (PE = em que eu estudei)
(5) Entrega senhor uma cerveja. (PE = entrega uma cerveja ao senhor)
(6) Ele entrou a pensão onde nós estávamos. (PE = entrou na pensão)
(7) Isso, eu não me preocupo muito. (PE = com isso, eu não me preocupo)
(8) Foi o concerto que muitas pessoas assistiram. (PE = ao concerto)

Referências bibiográficas:

ALEXANDRE, Nélia, GONÇALVES, Rita e HAGEMEIJER, Tjerk. 2011. A formação de frases relativas de PP no português de Cabo Verde e de São Tomé. Actas do XXVI Encontro da Associação Portuguesa de Linguística, 17-34. Lisboa: APL.
BRANDÃO, Sílvia. 2011. Concordância nominal em duas variedades do português: convergências e divergências. Veredas 15 (1), 164-178.
COULMAS, Florian (ed). 1998. The Handbook of Sociolinguistics. Oxford: Blackwell Publishing.GONÇALVES, Rita. 2010. Propriedades de subcategorização verbal no português de S. Tomé. Dissertação de Mestrado, Universidade de Lisboa.
RGPH (2001) 2003. Características educacionais da população – Instituto Nacional de Estatística. S.Tomé e Príncipe.
STROUD, Christopher. 1997. O corpus: antecedentes, quadro teórico e aspirações teóricas. In Christopher Stroud e Perpétua Gonçalves (orgs.) Panorama do Português Oral de Maputo. Vol I.,11-42. Maputo: INDE.
TUZINE, António. 1997. O papel da rede social na variação e mudança linguística. In Christopher Stroud e Perpétua Gonçalves (orgs.) Panorama do Português Oral de Maputo. Vol I., 75-94. Maputo: INDE.
WINFORD, Donald. 2003. An Introduction to contact linguistics. Oxford: Blackwell.

Keywords: português de S. Tomé, aquisição de L1/L2, mudança linguística

Biography note: Mestre em Linguística; doutoranda da FLUL, com um projeto intitulado “Aspetos da sintaxe do português de S. Tomé” (financiado pela FCT com a bolsa n.º SFRH/BD/73839/2010); e colaboradora do CLUL (grupo Anagrama – Análise Gramatical e Corpora).

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