PLANTAS MEDICINAIS E MEDICINA TRADICIONAL DE S. TOMÉ E PRÍNCIPE

 

Maria do Céu Madureira
Investigadora independente
mcmadureira@oninet.pt

De forma a valorizar a medicina tradicional e a permitir a utilização cada vez mais racional de plantas medicinais, iniciou-se em 1993 o estudo etnofarmacológico das ilhas de S. Tomé e Príncipe (STP), com a colaboração da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra e do Ministério da Saúde da RDSTP, tendo sido recolhidas, identificadas e estudadas as principais plantas medicinais usadas pelos terapeutas tradicionais e pela população. Foram registadas informações sobre os seguintes aspectos: nome vernáculo, utilização terapêutica, modo de preparação e aplicação, cuidados a ter. Recolheram-se mais de 1000 receitas tradicionais e informações sobre 350 espécies de plantas (Madureira, et al., 2008; Madureira, 2006; Martins, 2002), tendo sido contactados e caracterizados cerca de cinquenta terapeutas tradicionais (Curandeiros, Massagistas, “Stlijion Mátu”, “Tchiladô-Ventosa”, “Piadô-Záua”), bem como numerosos elementos mais idosos cujos conhecimentos eram respeitados nas suas povoações.

Com base nos dados recolhidos até ao momento, foi possível verificar que os terapeutas tradicionais e a população de STP possuem conhecimentos consideráveis acerca de plantas medicinais. De facto, as inúmeras espécies medicinais das ilhas são utilizadas em incontáveis preparações tradicionais de uso terapêutico muito variado, abrangendo as principais doenças da região. As informações recolhidas evidenciam a grande diversidade de plantas deste Arquipélago, bem como a existência de um sólido conhecimento local que indiciam as potencialidades terapêuticas de um grande número de espécies medicinais.

A recuperação e manutenção destes conhecimentos é de uma importância inquestionável, face ao desinteresse actual pela sabedoria dos “mais velhos” e ao desrespeito contínuo pelo equilíbrio dos ecossistemas naturais. Temos perante nós um verdadeiro reservatório de valiosos conhecimentos, aliado a um também não menos valioso reservatório de compostos químicos, muitos dos quais podem vir a ser importantes agentes terapêuticos, após sujeitos a estudos fitoquímicos, farmacológicos e clínicos adequados.

Com efeito, têm vindo a ser desenvolvidos diversos estudos fitoquímicos e farmacológicos em cerca de 60 plantas medicinais seleccionadas, tendo igualmente sido estudadas mais de 20 plantas medicinais aromáticas, com o objectivo de desenvolver substâncias com um potencial terapêutico interessante nas doenças de maior incidência na região (antimaláricos, anti-bacterianos, anti-fúngicos); os resultados confirmaram o uso terapêutico tradicional da maioria das plantas estudadas, permitindo a caracterização e identificação dos principais compostos activos (Madureira, 2010; Eric Gofin et al, 2002). Actualmente, deu-se início à pesquisa de compostos com actividade antitumoral, tendo para o efeito sido recolhidas cerca de 40 espécies de cogumelos nas florestas de S. Tomé e Príncipe, que serão identificadas e posteriormente estudadas para determinar as suas potenciais actividades antitumorais.

Através da recolha de informação de plantas usadas tradicionalmente, e do seu posterior estudo etnofarmacológico, poderão ser seleccionadas as que demonstrarem serem seguras, eficazes e facilmente acessíveis ou cultiváveis, e poderão integrar-se estas plantas validadas no sistema nacional de saúde, em particular no que diz respeito aos cuidados de saúde primários. De facto, este é o caminho mais adequado para assegurar um correcto aproveitamento de plantas medicinais indígenas, documentando simultaneamente a herança cultural dos velhos terapeutas tradicionais e impedindo a perda deste notável saber.

Keywords: plantas medicinais, medicina tradicional, S. Tomé e Príncipe

Biography note: Investigadora independente na área da Etnofarmacologia, Doutorada em Farmácia na especialidade de Farmacognosia e Fitoquímica, pela Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (2006), Professora Associada de Farmacognosia e de Fitoterapia no Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz (1997-2011); tem trabalhado desde 1993 em parceria com o Ministério da Saúde de S. Tomé e Príncipe no Estudo Etnofarmacológico de Plantas Medicinais locais, integrando a equipa de vários projectos desenvolvidos no país. O trabalho realizado tem como objectivo a manutenção do conhecimento da população autóctone, relativo à medicina tradicional e ao uso de plantas medicinais, bem como a investigação e desenvolvimento de novos fármacos a partir de produtos naturais, nomeadamente antimaláricos. É Coordenadora do Projecto Pagué, com finalistas do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas, para formar e incentivar jovens investigadores na área da Etnofarmacologia, sendo autora-coordenadora de livros e diversos artigos científicos sobre esta temática.

Bibliografia:

Madureira Maria do Céu, 2010. Antimalarial Drug Development Research and the Ancient Knowledge of Traditional Medicines in S. Tomé e Principe Islands” in Tradiciones y transformaciones en Etnobotánica – Traditions and transformations in Ethnobotany, Ed. CYTED (2010), Argentina. Cap. 6.05: 256-264. ISBN: 978-84-96023-95-6.

Maria do Céu Madureira, et al., 2008. “Estudo Etnofarmacológico de Plantas Medicinais de S. Tomé e Príncipe”, Ed. Ministério da Saúde STP / Fundação Calouste Gulbenkian, 208 pag. (2008). ISBN: 978-989-20-0760-1.

Madureira Maria do Céu, 2006. “Etnofarmacologia e Estudo de Espécies com Actividade Biológica da Flora de S. Tomé e Príncipe” – Tese de Doutoramento em Farmacognosia e Fitoquímica, Faculdade de Farmácia, Universidade de Coimbra, 2006.

Martins, Ana Paula, 2002. “Etnofarmacologia e Óleos Essenciais de Plantas Medicinais de S. Tomé e Príncipe” – Tese de Doutoramento em Farmacognosia e Fitoquímica, Faculdade de Farmácia, Universidade de Coimbra, 2002.

Eric Gofin, Eric Ziemnons, Patrick De Mol, Maria do Céu de Madureira, et al. 2002 “In Vitro Antiplasmodial Activity of Tithonia diversifolia and Identification of its Main Active Constituent: Tagitinin C “, Planta Medica, (2002) 68: 1-2.

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