O NATURALISTA ADOLPHO FREDERICO MÖLLER EM SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE: DOS ACIDENTADOS TERRENOS TROPICAIS AOS BASTIDORES DA ACADEMIA

António Carmo Gouveia
Centro de Ecologia Funcional
Departamento de Ciências da Vida
Universidade de Coimbra

gouveia.ac@gmail.com

 

Das explorações feitas [às ex-colónias portuguesas],
a do Sr. Moller é a mais digna de menção.
Teve ella por campo a ilha de S. Thomé.

 

Assim realçava Júlio Henriques (JH) a importância do trabalho de Adolpho Frederico Möller (AFM) para o conhecimento científico da então, pouco estudada, província portuguesa de S. Tomé e Príncipe. Nos curtos 4 meses que aí permaneceu (23 de Maio a 25 de Setembro 1885), diz-nos JH que “o Sr. Moller percorreu a área que vai da cidade até ao Pico de S. Thomé e do rio Contador ao rio Manuel Jorge” explorando desde “florestas ainda quasi virgens” a “quasi toda a parte da ilha mais habitada e cultivada”. O relatório do material recolhido pelo inspector do Jardim Botânico de Coimbra impressiona pela quantidade e diversidade, pois embora AFM tenha sido incumbido da “exploração botânica da ilha [recolhendo ca. 430 taxa de plantas vasculares, 96 fungos, 78 líquenes, etc.]” aproveitou “todo o tempo disponível para a exploração zoológica e geológica [249 taxa, entre insectos, aves, répteis e batráquios, etc.]”, reporta JH. Juntando a este material o envio, para a UC, de uma colecção de plantas vivas, madeiras, rochas e objectos antropológicos, é fácil perceber a dimensão do saber, curiosidade e incansável empenho de AFM como naturalista.

Se recorro às palavras de JH para descrever a exploração de AFM, faço-o porque pela mão do próprio não existe publicada nenhuma descrição sistematizada do empreendimento. E tal não é de estranhar, visto que o arquitecto da exploração de S. Tomé e Príncipe em particular, e do conhecimento científico das ex-colónias em geral, foi JH, facto sobejamente reconhecido e estudado. Mas é também inegável que AFM, o “conductor d’obras públicas”, não foi apenas um colector competente e se faltam publicações suas nas revistas académicas da época, não faltam nas mesmas revistas inúmeras referências ao seu nome.

Como era hábito com JH, as colecções que AFM reuniu na sua expedição foram enviadas para diversos cientistas nacionais e europeus, que no conforto dos seus gabinetes, se dedicaram à análise do novíssimo material.

De facto, só em resultado do estudo dos espécimes colhidos por Möller em S. Tomé, foram descritas 116 novos taxa de plantas e fungos. Destes, 14 espécies foram-lhe dedicadas com o restritivo específico molleri, bem como um género novo de fungos Ascomicetes, o Molleriella.

As novidades por entre o material zoológico foram menos e também mais problemáticas. Entre elas contam-se as rãs da discórdia, episódio que envolveu o célebre Barbosa du Bocage, o herpetologista russo Bedriaga e Francisco Newton.

Fora dos circuitos académicos, no entanto, AFM foi um escritor assíduo com colunas regulares em vários jornais de agricultura e horticultura, onde divulgou os seus múltiplos interesses, desde a flora tropical à botânica aplicada, das plantas medicinais à antropologia, e fomentou a necessidade do conhecimento natural das colónias.

Pretendo com esta comunicação explorar o enorme saber e contribuição para o conhecimento científico de S. Tomé de AFM, que apesar de reconhecido não está hoje justamente evidenciado.

Keywords: Século XIX, biodiversidade, ciência colonial

Biography note: António Carmo Gouveia doutorou-se em Biologia em 2007, pela Universidade de Coimbra, com trabalho em ecologia do montado e, mais recentemente, divide a sua investigação entre a ecologia de plantas invasoras e a história da ciência, como investigador no Centro de Ecologia Funcional da UC. Foi investigador visitante na Universidade de Stanford e no CSIC-Doñana em Sevilha. Actualmente, coordena um projecto financiado pelo Ciência Viva/COMPETE de investigação e produção de conteúdos para os meios de comunicação social sobre a ligação da UC aos estudos botânicos nas ex-colónias africanas, do qual resultará uma série documental, a ser exibida na RTP2, RTP África e RTP Internacional.

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