O CONTRIBUTO DE JÚLIO HENRIQUES PARA O CONHECIMENTO DA DIVERSIDADE VEGETAL DA ILHA DE S. TOMÉ

Natacha Catarina Perpétuo
natachaperpetuo@gmail.com

M. Teresa Gonçalves
mtgoncal@ci.uc.pt

 António Carmo Gouveia
gouveia.ac@gmail.com

CFE – Centro de Ecologia Funcional
Departamento de Ciências da Vida, Faculdade de Ciências e Tecnologia
Universidade de Coimbra

Jorge Pais de Sousa
CEIS20 – Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX
Universidade de Coimbra

jpsousa@sib.uc.pt

Foi com Júlio Henriques, quase 100 anos depois das “Viagens Philosophicas” organizadas por Vandelli (século XVIII), que ressurgiu o interesse científico pelo estudo dos territórios portugueses ultramarinos.

A forte incidência da malária em Portugal continental e ultramarino, na década de 60 do século XIX, motivou Júlio Henriques a empreender a introdução da cultura da quina em Angola, Cabo Verde, Moçambique e S. Tomé. Para tal, solicitou, a diversas instituições, sementes de diferentes espécies de Cinchona que semeava e mantinha nas estufas do Jardim Botânico de Coimbra. Ensaios realizados com a colaboração dos Serviços de Agricultura, de Governadores e de fazendeiros de várias províncias africanas, mostraram ser a ilha de S. Tomé a região mais propícia a essa cultura.

“Desde quando o Jardim Botanico da Universidade de Coimbra começou a ter relações com os agricultores da ilha de S. Tomé, enviando-lhe plantas úteis e entre elas principalmente as da quina, para que encetassem novas culturas, nutri desejo de visitar esta ilha para ver e estudar processos agrícolas e para contemplar a explêndida vegetação tropical.”. Assim descreve Júlio Henriques o seu interesse em visitar S. Tomé.

Júlio Henriques e o Governador da Ilha de S. Tomé, Custódio de Borja, foram os impulsionadores da Exploração Botânica da Ilha de S. Tomé realizada pelo jardineiro-chefe do Jardim Botânico de Coimbra, Adolpho Frederico Möller, em 1885. Möller colheu espécimes de plantas de todos os grupos vegetais e preparou ainda um colector, Francisco Dias Quintas, que deu continuidade a este trabalho. O interesse e entusiasmo pela ilha, que tanto material vegetal proporcionava ao herbário de Coimbra, levaram Júlio Henriques a deslocar-se a S. Tomé, em 1903, tendo já completado 65 anos e apesar das dificuldades inerentes às viagens naquela época. Durante a sua estadia na ilha, Júlio Henriques estudou os habitats e a distribuição das plantas espontâneas e cultivadas da ilha e colheu mais exemplares para herbário. No regresso a Coimbra intensificou as suas pesquisas sobre a ilha e publicou, em 1917, a monografia “A Ilha de S. Tomé sob o ponto de vista histórico-natural e agrícola”.

Face aos escassos meios humanos e materiais da Universidade de Coimbra para o estudo de tanto material, Júlio Henriques recorria à colaboração de especialistas, principalmente estrangeiros. Conseguiu, graças a essa rede de contactos e à sua determinação, ir publicando no Boletim da Sociedade Broteriana (1ª série, 1880-1920) os catálogos com as determinações dessas colecções, onde surgiam géneros, espécies e variedades novas para a Ciência. Na realidade, os estudos do material colhido por Möller, Quintas e pelo próprio Júlio Henriques, entre outros naturalistas, permitiram realizar enormes progressos no conhecimento da flora de S. Tomé.

Nesta comunicação propomo-nos analisar e divulgar o contributo de Júlio Henriques para o conhecimento da biodiversidade de S. Tomé, através da análise dos trabalhos sobre esta ilha publicados no Boletim da Sociedade Broteriana.

Keywords: Boletim da Sociedade Broteriana, diversidade vegetal, Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, Júlio Henriques, S. Tomé

Biography note:
Natacha Catarina Correia Rua Perpétuo – licenciada em Biologia (2006), pós‐graduada em Medicamentos e Produtos de Saúde à base de Plantas (2007) e mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal (2009) pela Universidade de Coimbra. É actualmente bolseira de Investigação no projecto “HC/0064/2009 – A História da Botânica na Universidade de Coimbra e a sua expressão no mundo lusófono: de Brotero a Abílio Fernandes”. Tem como principais áreas de interesse: Botânica, Biotecnologia, Biodiversidade, História da Ciência, Colecções Biológicas e Plantas Medicinais.

António Carmo Gouveia – doutorou-se em Biologia em 2007, pela Universidade de Coimbra, com trabalho em ecologia do montado e, mais recentemente, divide a sua investigação entre a ecologia de plantas invasoras e a história da ciência, como investigador no Centro de Ecologia Funcional da UC. Foi investigador visitante na Universidade de Stanford e no CSIC-Doñana em Sevilha. Actualmente, coordena um projecto financiado pelo Ciência Viva/COMPETE de investigação e produção de conteúdos para os meios de comunicação social sobre a ligação da UC aos estudos botânicos nas ex-colónias africanas, do qual resultará uma série documental, a ser exibida na RTP2, RTP África e RTP Internacional. 

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