ALTERAÇÕES DO USO DO SOLO E BIODIVERSIDADE EM SÃO TOMÉ

 

Ricardo Faustino de Lima
Lancaster Environment Centre
Lancaster University

rfaustinol@gmail.com

A ilha de São Tomé tem sido sistematicamente apontada como uma prioridade global para a conservação da biodiversidade. O seu interesse prende-se sobretudo ao número excepcionalmente elevado de endemismos – variedades biológicas que apenas ocorrem neste local. De entre as várias actividades humanas que ameaçam a sobrevivência desta biodiversidade única, a alteração do uso do solo tem sido apontada como a principal. Desde a sua descoberta em finais do séc. XV, os habitats naturais de São Tomé têem vindo a ser progressivamente humanizados: os ciclos da cana do açúcar (sécs. XVI-XVII), do café e do cacau (sécs. XIX-XX) promoveram a perda da quase totalidade da floresta de baixa altitude e de alguma da floresta de montanha, e a actual necessidade de alimentar uma população em crescimento acelerado coloca novas pressões sobre os recursos naturais da ilha.

Para avaliar o impacto do uso do solo na biodiversidade, as comunidades de aves e árvores foram amostradas de forma sistemática ao longo de um gradiente de intensificação das práticas agrícolas e florestais. Este gradiente consiste em quatro tipos distintos de uso do solo: florestas antigas, nas quais existe actualmente uma actividade humana muito reduzida; florestas secundárias, que são exploradas para madeira ou que resultam de abandono agrícola; plantações de sombra, onde o cultivo de café, cacau e outras culturas é feito sob a copa de árvores;  e áreas não florestais, que representam o culminar da intensificação agroflorestal e onde não existe uma copa árborea contínua.

Foram registadas 4091 aves e 3500 árvores pertencentes a 33 e 110 espécies, respectivamente. A maioria das 16 espécies de aves endémicas identificadas ocorreram ao longo do gradiente analisado, enquanto que as 15 espécies de árvores endémicas estavam virtualmente restritas às florestas. Entre as aves, o papa-figos (Oriolus crassirostris) e o selelê-mangochi (Dreptes thomensis) não ocorreram nem nas plantações de sombra nem nas áreas não florestais. Outras aves, como o tchim-tchim-tcholó (Ploceus sanctithomae) e o olho-grosso (Zosterops lugubris), tornavam-se menos abundantes em usos do solo intensivos. As espécies de árvores endémicas existentes na floresta antiga são praticamente as mesmas da floresta secundária, mas aqui estas tornam-se menos abundantes.

Apesar das aves terem demonstrado maior resiliência à alteração do uso do solo do que as árvores, em ambos os grupos a subsistência das espécies endémicas está associada à persistência de zonas florestais bem preservadas. São Tomé ainda possui uma paisagem rica em habitats florestais, mas a manterem-se as actuais tendências de desflorestação e de intensificação das práticas agrícolas, a sobrevivência de muitos dos seus endemismos vai ficar ameaçada. Para assegurar a sobrevivência do património natural ímpar de São Tomé é urgente adoptar práticas de gestão territorial e de desenvolvimento agroflorestal que se coadunem com a conservação da biodiversidade. Neste âmbito são bastante promissores os mecanismos de pagamento por serviços de ecossistemas, como o REDD+.

Keywords: agricultura, análise de comunidades, endemismo, floresta

Biography note: Licenciado em Biologia Ambiental pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa em 2001, encontra-se actualmente a concluir a tese de doutoramento sobre “O impacto de práticas agrícolas e florestais sobre a biodiversidade em São Tomé – implicações para a conservação das espécies endémicas”. Tem um interesse alargado por ecologia e em particular pela aplicação do conhecimento científico para travar a perda de biodiversidade