Da Baleação ao Whale Watching em São Tomé e Príncipe:
A investigação e a conservação de cetáceos é agora uma realidade com futuro?

Cristina Brito
Escola de Mar
CHAM – Centro de História de Além-mar
FCSH-UNL e Universidade dos Açores

escolademar@gmail.com

Cristina Picanço
Escola de Mar
CIUHCT – Centro InterUniversitário de História das Ciências e da Tecnologia
FC-UL
cristina.picanco@gmail.com

Francisco Gonçalves
Global Ocean, London, United Kingdom
Oceanário de Lisboa, Lisboa, Portugal
francisco@catus.net

Bastian Loloum
MARAPA, São Tomé
São Tomé e Príncipe
zuntabawe@gmail.com

Inês Carvalho
Escola de Mar
Sackler Institute for Comparative Genomics
American Museum of Natural History,
New York, USA
carvalho.inesc@gmail.com

A ocorrência de cetáceos (baleias e golfinhos) na costa Ocidental Africana e nas ilhas oceânicas do Golfo da Guiné é ainda muito pouco estudada e conhecida. Com base em registos históricos como os de baleação industrial, parece existir uma elevada biodiversidade de espécies de cetáceos a ocorrer na região. No entanto, atualmente ainda existe muito pouca informação sobre a ocorrência, distribuição e ecologia das espécies.

São Tomé e Príncipe, parece ser uma área importante de concentração de cetáceos, provavelmente devido à abundância de presas e à existência de zonas baixas e protegidas muito próximo da costa. Entre 2002 e 2006, desenvolveu-se um projeto de investigação com o objetivo de estudar a ocorrência e distribuição de cetáceos em São Tomé. Neste estudo foi registada a presença de baleias corcunda (Megaptera novaeangliae), golfinhos roazes (Tursiops truncatus), golfinhos malhados (Stenella attenuata), orcas (Orcinus orca), cachalotes (Physeter macrocephalus) e baleias piloto (Globicephala spp). Observaram-se áreas particulares de concentração de cetáceos, nomeadamente para as baleias corcunda a ocorrer na zona sul da ilha de São Tomé e os golfinhos malhados a ocorrer principalmente na zona noroeste; os golfinhos roazes parecem ocorrer ao longo de toda a costa. Durante o mesmo período, foi conduzida uma pesquisa histórica e socio-cultural com base no Arquivo Nacional de São Tomé bem como em algumas associações locais. Assim foi possível listar as espécies que ocorrem na região, com o suporte nos registos de baleação, e obter informação histórica sobre as atividades marítimas humanas no arquipélago com possível impacto nos cetáceos.

A informação histórica e recente sobre a ocorrência e distribuição de cetáceos tem um papel importante na identificação de fronteiras para áreas marinhas protegidas, sendo crucial para o desenvolvimento de programas de gestão e monitorização. Ainda que dados sobre cetáceos pelágicos sejam geralmente difícil de obter, deve continuar-se a fazer um esforço nesse sentido e complementando os registos atuais, sempre que possível, com registos históricos. A combinação destes dois tipos de dados é, na verdade, fundamental para os objetivos de conservação e gestão de populações, espécies ou habitats. Para além disso, é particularmente relevante para estudar ecossistemas com poucas perturbações humanas e também quando não existem dados de base, como seja o caso de muitos arquipélagos oceânicos tropicais onde, tal como em São Tomé e Principe, existe pouca informação sobre populações de cetáceos. A presente investigação permitiu obter novo conhecimento sobre estas populações e estão a ser feitos esforços no sentido de criar programas e legislação local para a regulamentação das atividadades humanas que afetam os cetáceos, como seja a observação de cetáceos (whale watching).

A correta utilização dos recursos ambientais constitui um elemento chave no desenvolvimento turístico, permitindo a manutenção dos processos ecológicos e permitindo a conservação da herança natural e da biodiversidade de uma região. A observação de cetáceos (observação ocasional, recreativa ou turística de baleias e golfinhos no seu ambiente natural) é uma atividade de ecoturismo que ocorre um pouco por todo o mundo e constitui um bom exemplo desta situação. Se desenvolvida com os devidos cuidados, esta atividade pode trazer a países em vias de desenvolvimento rendimentos económicos significativos, permitir angariar fundos para a investigação científica e ainda chamar a atenção para a importância da conservação destes animais e do seu ambiente. Várias medidas para a implementação de programas contínuos de investigação visando a divulgação e a conservação das populações naturais de cetáceos estão agora a ser trabalhadas. Mas, mais importante, em São Tomé e Príncipe, é a perspetiva de uma mudança de atitude para iniciativas com um caráter de proteção ambiental. Neste sentido, investigadores nacionais e internacionais, decisores políticos, e todos aqueles que utilizam e dependem dos recursos marinhos locais, deverão ser conhecedores da realidade biológica e estar envolvidos para um objetivo comum. A aposta na investigação, em paralelo com planos de educação ambiental e com programas de whale watching devidamente estruturados, constitui o caminho a seguir.

Keywords:  cetáceos, baleação, whale watching, investigação, conservação

Biography note:
Cristina Brito –
Doutora em História (História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa), é investigadora integrada no Centro de História de Além-Mar (CHAM, FCSH-UNL),  sócia fundadora da Escola de Mar e presidente da direção da Associação Para as Ciências do Mar. Licenciada em Biologia (FCUL) e Mestre em Etologia (ISPA), é especialista em estudos interdisciplinares e integrados vocacionados para o meio marinho, história ambiental e conservação de espécies e habitats. Tem vários artigos publicados e uma vasta experiência na recolha e análise de dados ecológicos, históricos e sócio-culturais, com anos de trabalho em Portugal (continental e ilhas) e em países africanos. Para além dos seus interesses em biologia e história dos mamíferos marinhos, da caça à baleia em termos mundiais e história das ciências e dos descobrimentos portugueses na África Ocidental e nas Ilhas Atlânticas, tem dedicado muito tempo à orientação de teses de licenciatura e mestrado nas áreas da Ecologia e Conservação Ambiental.

Cristina Picanço – Licenciada em Biologia e Mestre em Biologia da Conservação pela Universidade de Évora. É bolseira de doutoramento da FCT, em História das Ciências, com o projecto “Narrativas, imagens e lendas: as descrições dos grandes animais marinhos nos relatos das viagens portuguesas nos séculos XV a XVII”. Ganhou uma bolsa para a investigação de baleias e golfinhos em São Tomé e Príncipe, através do projecto “Project Especes Phare – Ecofac/Rapac” em 2004. Atualmente os seus interesses de investigação são: História dos grandes animais marinhos nos descobrimentos portugueses; História das ciências; Conservação de mamíferos marinhos; Biologia e ecologia de cetáceos.  É ainda membro da direção da Associação para as Ciências do Mar.

Francisco Gonçalves – Formado em biologia pela University of Glamorgan (Wales, UK) tem desenvolvido trabalho na área da conservação de cetáceos desde 2004 em colaboração com a Global Ocean (London, UK) e a International Fund for Animal Welfare (IFAW), quase sempre ligado a temáticas sobre a baleação e o uso sustentável e não-invasivo de cetáceos. É atualmente o responsável pela área de conservação do Oceanário de Lisboa e o representante em Portugal da International League for the Protection of Cetaceans.

Bastien Loloum – De nacionalidade francesa, é residente em São Tomé desde 2005. Mestre em Línguas Estrangeiras e Comércio Internacional, é também titular de um Mestrado em Turismo Sustentável e Ecoturismo obtido na Universidade de Montpellier. Participou na implementação de numerosas iniciativas de eco-turismo e de proteção do ambiente em São Tomé e na sub-região. Enquanto voluntário da cooperação francesa entre 2005 e 2008, ganhou experiência na implementação e gestão de projectos de eco-turismo de base comunitária integrados nas atividades dos Parques Naturais Obô de São Tomé e do Príncipe (Programa de Proteção das Tartarugas Marinhas, Jardim Botânico de Bom Sucesso, Eco-turismo no Príncipe etc). É fundador e sócio-gerente do gabinete de consultoria Zuntabawé, Lda criado em 2008. Permanecendo ativo a nível associativo em São Tomé, é funcionário técnico da ONG MARAPA com a qual coordena a Operação Tunhã, um projeto de monitorização dos cetáceos e de whale watching en São Tomé e Príncipe.

Inês Carvalho – Bióloga (FCUL) e Mestre em Etologia (ISPA), está a terminar o doutoramento em Biologia Populacional pela Universidade do Algarve e Museu Americano de História Natural. É investigadora associada da Escola de Mar e membro da direção da Associação Para as Ciências do Mar, para além sido tem sido consultora cientifica da Wildlife Conservation Society no Projecto Oceans Giants. Tem desenvolvido e participado em trabalhos de investigação e conservação sobre baleias e golfinhos em Portugal e em países africanos, tendo ganho diversas bolsas e projetos nesta área. Tem vários artigos publicados em revistas cientificas internacionais e uma vasta experiência na recolha e análise de dados biológicos, ecológicos e comportamentais em Portugal e em países africanos. Tem  larga experiência em técnicas laboratoriais de biologia molecular. Os seus interesses de investigação são a conservação e ecologia de cetáceos, em especial quais os factores naturais que influenciam a estrutura social populacional deste grupo de animais.

Advertisements