José Domingos Costa
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 Referenciada nos relatos do Piloto Anónimo a presença em São Tomé de João Menino, homem muito velho”, “negro riquíssimo”, como ele se lhe refere, esta figura em sido apresentada, pela generalidade dos investigadores, como prova de que, a par dos europeus e dos “filhos da terra”, não teriam sido apenas os escravos negros trazidos do continente os únicos africanos a constituírem a cadeia de povoadores do arquipélago. Na mesma altura, de sua livre vontade, teriam vindo também outros africanos, aproveitar-se das oportunidades de negócio entretanto geradas na ilha, mormente pelo florescente cultivo da cana-de-açúcar.

Sem pretender pôr em causa as linhas de investigação seguidas anteriormente pelos historiadores que referem a existência de João Menino, nem tão-pouco as suas conclusões que lhe atribuem a condição de comerciante, é objectivo deste trabalho, caminhando noutra direcção, levantar a hipótese de este homem poder ter sido originalmente escravo e, ao beneficiar do decreto régio de D. Manuel I, assinado em 1517, conseguir a alforria e, consequentemente, a sua liberdade.

Fazendo uma breve sínteses das condições políticas, económicas e sociais que conduziram os portugueses ao povoamento da ilha e, conjuntamente com castelhanos, franceses e genoveses, interessados em investir em áreas de grande rendimento, das razões que os levaram a decidir-se pela monocultura da cana-de-açúcar, o trabalho, tendo A Ilha de São Tomé nos Séculos XV e XVI da autoria do Piloto Anónimo como fonte, e utilizando o método comum à linguística forense — que parte da hipótese menos para a mais plausível —, vai queimando etapas até restar aquela que se afigura como a de maior consistência.

Com efeito, são de tal forma escassas as informações que nos chegam sobre esta figura enigmática e difusa de João Menino — terreno fácil, portanto, para a especulação —, que só uma análise porfiada, medindo e pesando cada palavra, nos poderemos abalançar a qualquer tipo de conclusão.

Palavras-chave: Piloto anónimo, João Menino, Escravo, Alforria