SÃO TOMÉ E A AMÉRICA ESPANHOLA NO SÉCULO XVI:COMÉRCIO E ALIMENTAÇÃO DOS ESCRAVOS A BORDO NUMA ROTA TRANSATLÂNTICA

Maria Manuel Ferraz Torrão
Centro de História – Instituto de Investigação Científica Tropical
mmanueltorrao@hotmail.com

A articulação comercial que se estabeleceu entre o império ultramarino português e o espanhol, ao longo do século XVI, através do tráfico negreiro têm sido, nos últimos anos, objecto de investigações sistemáticas, mas com um quase exclusivo enfoque na rota que ligava as ilhas de Cabo Verde e a costa da Guiné às Índias de Castela.

Contudo, esta não é uma realidade comercial que se circunscreva exclusivamente a este circuito. Da ilha de São Tomé saíam também em direcção aos portos da América Central, muitos navios carregados de escravos africanos. Existem, mesmo, registos documentais portugueses que permitem datar de bastante cedo, mais precisamente dos anos 20 do século XVI, estes primeiros despachos de africanos. Envios que se mantiveram ao longo das décadas seguintes, embora com um carácter bastante irregular, especialmente se se comparar esta realidade com o que sucedia relativamente aos envios efectuados a partir das ilhas de Cabo Verde.

Embora estas ligações entre a ilha de São Tomé e os portos da América Espanhola se expressem por um movimento mercantil mais descompassado e apresentando um volume muito inferior ao que se verificava a partir da ilha de Santiago, entendeu-se todavia relevante avaliar, igualmente, a importância de mais esta rota negreira no Atlântico, para que seja possível, cada vez mais, conhecer a realidade multifacetada do espaço atlântico quinhentista, tentando compreender as razões da hegemonia de uns circuitos sobre os outros.

A par desta abordagem, pretende-se também identificar os mercadores negreiros envolvidos nestes negócios, de forma a clarificar se se tratava ou não do mesmo grupo mercantil lisboeta que dominava o trato Cabo Verde – Índias de Castela. Procura-se, assim, compreender melhor a integração e a “especialização” de determinados indivíduos e famílias na gestão de certos tratos, neste caso particular no tráfico negreiro atlântico, no qual Portugal e os portugueses desempenharam um papel que não pode nem deve ser ignorado, mas que é premente conhecer com maior exactidão, para melhor avaliar a mais um aspecto da importância de Portugal na confluência das rotas comerciais ultramarinas.

Neste comércio há outra componente que não é possível ignorar, a da alimentação a bordo. Felizmente, a documentação disponível permite identificar a dieta alimentar dos escravos e estabelecer, inclusivamente, a equivalência entre o número de negros embarcados e as quantidades e variedades de alimentos também entrados nos mesmos navios, possibilitando gizar um estudo nutricional do regime alimentar destes africanos transferidos forçadamente de São Tomé para a América Central.

Keywords: Ilha de São Tomé, América Espanhola, tráfico negreiro, alimentação a bordo, regime nutricional

Biography note: Investigadora do Centro de História do IICT. Doutorada em História pela Universidade dos Açores, especializou-se em temáticas relacionadas com a história Atlântica, particularmente com história das ilhas de Cabo Verde, tendo defendido uma tese sobre o Tráfico de escravos entre as ilhas de Cabo Verde e a costa da Guiné e a América Espanhola. Membro, desde 1987, da equipa luso-caboverdiana que elaborou os vários volumes da História Geral de Cabo Verde tem, igualmente, integrado diversos projectos interdisciplinares em curso no Departamento de Ciências Humanas do IICT ligados com a história da Comissão de Cartografia e com a evolução dos conhecimentos científicos, nomeadamente a nível da evolução do conhecimento científico nas ilhas de Cabo Verde.


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