A CIDADE DE SÃO TOMÉ NO CONTEXTO DAS CIDADES QUINHENTISTAS DE ORIGEM PORTUGUESA

Manuel C. Teixeira
Faculdade de Arquitectura, UTL
CAPP – Centro de Administração e Políticas Públicas
ISCSP – UTL

manuelcteixeira@gmail.com

O núcleo urbano de São Tomé, situado na ilha de São Tomé, foi fundado em finais do século XV e elevado a cidade em 1535. Urbanisticamente, São Tomé insere-se no tipo de cidades portuguesas marítimas, partilhando as características morfológicas destas cidades, de que constitui um dos exemplos mais interessantes.

A localização da cidade na Baia de Ana de Chaves obedece aos critérios de localização e de escolha de sítio comuns a muitos núcleos urbanos fundados a partir do século XV nas ilhas dos arquipélagos da Madeira, Açores, Cabo Verde e São Tomé, bem como no Brasil: baías abrigadas, com águas profundas, boa exposição solar, percorridas por ribeiras e com facilidades de abastecimento, e com acidentes naturais que criavam as condições necessárias para a sua defesa.

A cidade de São Tomé obedece a estes requisitos: uma baía abrigada, oferecendo boas condições de porto natural, com uma pendente suave, orientada a norte (dado situar-se no hemisfério sul), percorrida pela ribeira de Água Grande, e com dois cabos localizados num e noutro extremo da baía, que protegiam o porto e a cidade. Num deles, a nascente, veio construir-se a fortaleza de S. Sebastião, e sensivelmente a meio desta, numa posição elevada, o forte do Picão, os quais constituiam a estrutura defensiva da cidade.

Tal como era comum nestas cidades marítimas, que se desenvolveram nas suas primeiras fases sem o apoio de técnicos especializados – arquitectos ou engenheiros militares – que orientassem a sua estruturação, a primeira linha estruturante da cidade foi um percurso ao longo da baía, ligando ermidas localizadas nos seus extremos. Em fases seguintes desenvolveram-se outras ruas longitudinais, paralelas a esta, e ruas transversais que as ligavam.

Sensivelmente a meio desta primeira rua que seguia o contorno da baía localizava-se a torre do capitão, a primeira estrutura defensiva da cidade. É no terreiro adjacente a esta torre, junto à ribeira, que se vem construir mais tarde a Igreja de Santa Maria e a  Misericórdia, passando a chamar-se de Terreiro da Misericórdia. Deste mesmo espaço saía a principal via transversal, que se dirigia para a igreja de Santo António, localizada numa posição mais elevada, consolidando-se desta forma a estrutura fundamental da cidade. Com a progressiva implantação de funções e edifícios singulares no terreiro da Misericórdia, ele ía adquirindo características de praça, tornando-se o principal espaço urbano da cidade.

Esta estrutura urbana, que encontramos também nas cidades de Ponta Delgada, nos Açores, na Ribeira Grande, em Cabo Verde, ou no Rio de Janeiro, no Brasil, constitui um modelo de cidade característico do urbanismo de origem portuguesa, de que a cidade de São Tomé faz parte. É importante que técnicos, políticos e gestores municipais e a população em geral tomem consciência desta cultura urbana comum que partilham, para além das suas especificidades próprias. O respeito por essas referências culturais, historicamente sedimentadas, evita a descaracterização urbanística e o desenvolvimento urbano segundo princípios e modelos alheios à cultura tradicional, e cria as condições necessárias para que as cidades e a sua cultura urbana sejam motores de desenvolvimento económico e social.

Keywords: urbanismo, morfologias urbanas, São Tomé

Biography note: Dip.Arq., AA Hons.Grad.Dipl., PhD.
Professor Catedrático, Faculdade de Arquitectura, Universidade Técnica de Lisboa. As actividades de investigação têm-se debruçado sobre a Habitação, a
Arquitectura e as Morfologias Urbanas. Actuais actividades de
investigação incluem os seguintes projectos:
. As Praças na Cidade Portuguesa. Origens, Processos de Desenvolvimento,
. Atlas do Património Urbano Português Construído no Mundo. As Características
Morfológicas, as Invariantes de Forma e os Modos de Adaptação ao Sítio.