A produção açucareira em São Tomé ao longo de quinhentos

Luís da Cunha Pinheiro

CHAM – Centro de História de Além-mar
FCSH-UL

luispinheiro08@gmail.com

A economia são-tomense quinhentista assentou na escravatura e na produção açucareira. A exploração económica de São Tomé alimentou os fluxos intercontinentais, através do investimento numa agricultura intensiva de rendimento elevado, a cana-de-açúcar, e da constituição de uma plataforma de revenda de mão-de-obra escrava, adquirida nos mercados da costa ocidental africana. Quer o açúcar, quer a maioria dos escravos eram exportados para a Europa e para as Índias onde eram essenciais, nomeadamente os escravos, para a exploração económica dos novos espaços coloniais.

Os escravos para além de uma importante força de trabalho, uma mão-de-obra indispensável para o trabalho nos engenhos, eram também uma importante “força de pressão” para os seus senhores, socorrendo-se destes para impor a arbitrariedade e para se oporem às autoridades administrativas. De acordo com Jácome Leite os escravos eram a «principal cousa nesta terra» pelo que «posto um homem na sua fazenda ou no mato fica quase isento de todas as leis»[1], o que justifica a permanente e latente conflitualidade vivida na sociedade são-tomense.

É este o contexto que subjaz à presente comunicação onde procurarei analisar a produção açucareira da ilha de São Tomé ao longo do Quinhentos, desde as primeiras tentativas de cultivo da cana até ao sucesso da sua plantação e ao seu declínio causado por factores internos e externos, fruto dos ataques dos mocambos às fazendas, dos ataques e dos saques dos franceses e dos holandeses à ilha, das pragas e à concorrência do açúcar brasileiro. Ao longo da comunicação procuraremos abordar a forma como o açúcar era produzido, em que condições, como era armazenado até ser embarcado nos navios que o transportaria até à Europa e quais os impostos a que estava sujeito.

A produção açucareira são-tomense era exportada maioritariamente para a Europa, sendo a Flandres um dos seus principais mercados. Partindo da análise dos livros de avarias dos escrivães da feitoria de Antuérpia procuraremos analisar a evolução, nos períodos de 1535 a 1572, da quantidade de açúcar são-tomense exportado para este mercado, bem como dos demais produtos que seguiam nos navios, nomeadamente o pau-vermelho e o marfim. Para além das quantidades procuraremos identificar a quem pertenciam as caixas de açúcar vendidas nestes mercados.

Em conclusão a presente comunicação procurará estudar a forma como o açúcar valorizou e possibilitou a exploração económica de São Tomé ao longo do período em análise.

Keywords: Açúcar, Escravatura, Caixas, Flandres

Biography note: Licenciado em História e com uma pós-graduação em História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa (séculos XV-XVIII) pela FCSH-UNL. Dedica-se sobretudo a estudar a presença portuguesa nas ilhas atlânticas. Colaborou em diversos projectos de investigação e participou no volume dedicado às Ilhas Atlânticas da Nova História da Expansão Portuguesa. Trabalhou ainda na Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e no Centro de Estudos Damião de Góis.


[1] Relatório de Jácome Leite a el-rei de 8 de Agosto de 1553 (cf. IAN/TT, Corpo Cronológico, parte I, maço 90, documento 126 – documento publicado em Monumenta Missionaria Africana. África Ocidental, coligida e anotada pelo Padre António Brásio, 1.ª série, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, vol. II, pp. 287-294, doc. 97.